Jackson Cionek
23 Views

Estimular enquanto escutamos - quando o cérebro deixa de ser apenas observado

Estimular enquanto escutamos - quando o cérebro deixa de ser apenas observado

Durante muito tempo, uma parte importante da neurociência foi organizada em torno de uma situação relativamente confortável: primeiro observamos o cérebro, depois tentamos compreender o que aquilo significa.

Registramos EEG.

Apresentamos um estímulo.

Pedimos que uma pessoa imagine um movimento.

Comparamos condições.

Procuramos diferenças.

Mas o que acontece quando decidimos fazer algo muito mais difícil?

E se estimularmos o cérebro enquanto tentamos continuar escutando aquilo que ele está fazendo?

Essa é a pergunta metodológica e conceitual que torna particularmente interessante o trabalho de Mareike Vermehren, Niels Peekhaus, Annalisa Colucci, Marian Wiskow, David Haslacher, Gabriel Curio e Surjo R. Soekadar, publicado em 2026 no IEEE Transactions on Neural Systems and Rehabilitation Engineering.

No estudo Robust Brain–Computer Interface (BCI) Control During Frequency-Tuned Transcranial Alternating Current Stimulation (tACS), os autores enfrentaram um problema que, à primeira vista, parece quase paradoxal: utilizar uma interface cérebro–computador baseada em EEG ao mesmo tempo em que uma corrente elétrica externa é aplicada ao cérebro justamente na faixa de frequência que se deseja investigar.

Não se trata apenas de uma dificuldade de engenharia.

A pergunta toca uma questão central da neurociência contemporânea:

como podemos testar causalmente o papel de uma dinâmica cerebral sem destruir, pela própria intervenção, nossa capacidade de observá-la?

Uma pergunta que exige perturbar o sistema

Grande parte das associações encontradas em EEG continua sendo correlacional.

Observamos uma oscilação.

Observamos um comportamento.

Encontramos uma relação entre os dois.

Mas correlação não significa necessariamente que aquela oscilação esteja causalmente produzindo, modulando ou sendo necessária para aquele comportamento.

Uma das maneiras de avançar é interferir deliberadamente na dinâmica neural.

A estimulação transcraniana por corrente alternada, ou tACS, é especialmente interessante porque permite aplicar correntes oscilatórias em frequências específicas. A hipótese de fundo é que essas correntes podem interagir com oscilações neurais endógenas, alterando sua dinâmica. Revisões recentes discutem justamente o potencial da tACS para modular oscilações, excitabilidade, plasticidade e redes funcionais, embora ainda existam importantes questões sobre mecanismo, dose, estado cerebral e efeitos clínicos.

O problema aparece imediatamente.

Se utilizamos EEG para acompanhar uma oscilação cerebral e simultaneamente aplicamos uma corrente oscilatória externa, o sinal da estimulação pode se sobrepor ao sinal neural que queremos medir.

É como tentar ouvir uma pessoa falando baixo enquanto colocamos um alto-falante ao lado do microfone.

A solução mais fácil seria desligar o alto-falante.

Mas então perderíamos exatamente aquilo que Vermehren e seus colegas queriam investigar:

o cérebro enquanto está sendo perturbado.

A elegância do desenho está em não interromper o acontecimento

Os pesquisadores trabalharam com 14 participantes saudáveis e utilizaram uma BCI baseada em imagética motora.

Na imagética motora, a pessoa imagina executar um movimento sem necessariamente realizá-lo fisicamente. Esse processo produz alterações detectáveis nos ritmos sensório-motores do EEG, permitindo que uma BCI classifique diferentes estados e transforme essa atividade em comandos.

Os autores compararam duas formas de processar o sinal.

A primeira utilizava um filtro Laplaciano, uma abordagem convencional.

A segunda combinava spatio-spectral decomposition — SSD — com beamforming, construindo um pipeline espacial em tempo real especialmente destinado a separar melhor a atividade neural de interesse dos artefatos gerados pela estimulação.

A BCI foi testada tanto sem estimulação quanto durante uma estimulação transcraniana por corrente alternada modulada em amplitude e ajustada em frequência — AM-tACS.

A hipótese era clara:

sem estimulação, os dois métodos deveriam funcionar de forma semelhante.

Durante a estimulação, porém, apenas a estratégia SSD-beamforming deveria preservar um controle robusto da BCI.

Isso produz um desenho experimental particularmente elegante porque o método novo não é simplesmente testado isoladamente.

Ele é colocado diante da condição na qual realmente precisa demonstrar sua utilidade.

Quando não havia estimulação, praticamente nada separava os métodos

Sem AM-tACS, os dois pipelines apresentaram desempenho semelhante.

O SSD-beamforming alcançou aproximadamente 73% de acurácia, enquanto o filtro Laplaciano ficou em aproximadamente 72%.

A diferença não foi significativa.

Esse resultado é metodologicamente importante.

Se o novo método fosse superior em qualquer situação, seria difícil saber se sua principal vantagem estava realmente relacionada à capacidade de enfrentar o artefato da estimulação.

Mas foi justamente quando o ambiente experimental mudou que a diferença apareceu.

Durante a AM-tACS, o desempenho da BCI utilizando filtragem Laplaciana caiu para aproximadamente 58%, próximo ao nível de acaso para aquela classificação.

Com SSD-beamforming, entretanto, o desempenho permaneceu robusto, aproximadamente 76%.

Ou seja:

a estimulação praticamente destruiu a capacidade do pipeline convencional de interpretar corretamente o EEG.

Mas o método desenvolvido pelos autores conseguiu preservar a decodificação.

O mérito não está apenas nos 76%

Seria fácil transformar o artigo em uma notícia tecnológica:

“Novo algoritmo mantém BCI funcionando durante estimulação cerebral.”

É verdade.

Mas o aspecto cientificamente mais interessante é outro.

Os autores construíram uma situação na qual agora se torna possível estimular e decodificar simultaneamente.

Isso significa que podemos começar a fazer perguntas diferentes.

Em vez de:

“essa oscilação aparece quando o participante realiza determinada tarefa?”

podemos perguntar:

“o que acontece com a tarefa se interferirmos precisamente nessa oscilação enquanto ela participa do processo?”

Essa mudança é enorme.

Passamos de uma neurociência predominantemente observacional para uma possibilidade experimental mais causal.

E há ainda um terceiro passo:

se conseguimos observar a atividade, identificar um estado e modificar a estimulação em função desse estado, começamos a nos aproximar de sistemas bidirecionais e adaptativos.

O cérebro produz um sinal.

A máquina interpreta esse sinal.

A máquina intervém.

O cérebro muda.

A máquina volta a ler.

E o ciclo continua.

É por isso que os próprios autores apresentam o trabalho como um caminho para interfaces cérebro–computador bidirecionais e para testes mais diretos das contribuições causais das oscilações cerebrais.

O cérebro que medimos já está acontecendo em alguma condição

É aqui que o artigo começa a conversar com nossa proposta de Corpo-Território e Consciência 5D.

Não porque o estudo investigue consciência.

Não investiga.

E também não porque tenha demonstrado que uma determinada oscilação seja “a consciência”.

Não demonstrou.

Sua importância para nossa reflexão está em outra parte.

O estudo nos obriga a reconhecer algo que às vezes fica invisível na maneira como descrevemos experimentos:

todo cérebro que medimos já está em uma condição.

Está sentado ou em movimento.

Está esperando ou respondendo.

Está imaginando um movimento.

Está recebendo estímulos sensoriais.

Está sendo estimulado eletricamente.

Está fatigado, atento, ansioso, familiarizado ou surpreendido.

O registro não captura uma entidade neutra chamada “cérebro” e depois adiciona condições.

Ele captura uma dinâmica que já está acontecendo em um organismo situado.

Neste experimento, isso se torna impossível de ignorar porque os pesquisadores mudam deliberadamente uma condição material do sistema enquanto continuam tentando interpretá-lo.

Intervir não é escrever diretamente sobre o cérebro

Há também uma cautela importante.

A expressão “estimulação cerebral” pode produzir a impressão de que selecionamos uma frequência, aplicamos a corrente e então determinamos diretamente aquilo que o cérebro fará.

A realidade é muito mais complexa.

A literatura recente sobre tACS enfatiza justamente que seus efeitos dependem do estado neural presente, da frequência aplicada, da anatomia individual, da intensidade, da distribuição do campo elétrico e de mecanismos de plasticidade que podem variar entre participantes e situações.

Isso é particularmente interessante para nosso conceito de Corpo-Território.

Uma intervenção não chega a um organismo vazio.

Ela encontra um sistema que já possui uma dinâmica.

Portanto, talvez seja mais adequado imaginar a estimulação não como uma ordem que entra no cérebro, mas como uma nova condição que passa a participar das possibilidades daquele sistema.

O resultado dependerá do encontro entre perturbação e estado.

Frequência não é identidade

Existe outra armadilha conceitual.

Quando encontramos uma determinada banda oscilatória associada a um comportamento, podemos ser tentados a transformar aquela frequência em uma espécie de entidade funcional:

“essa é a frequência do movimento.”

“essa é a frequência da atenção.”

“essa é a frequência da consciência.”

A própria lógica deste trabalho sugere cautela.

Oscilações importam, mas seu significado depende de localização, rede, fase, tarefa, estado e interação com outras dinâmicas.

Se uma frequência pode ser estimulada e sua contribuição causal investigada, isso não significa que aquela frequência seja a função investigada.

Ela pode participar de uma configuração.

Essa distinção é central para a Consciência 5D.

A percepção de Ser não precisa estar localizada em uma frequência, área ou instante isolado.

Podemos pensar em múltiplos processos participando simultaneamente da configuração do Corpo-Território, alguns ganhando maior peso funcional em determinado momento, outros permanecendo ativos sem dominar o canal atencional.

Ler, perturbar, reler

Talvez possamos representar a contribuição do artigo em três movimentos:

Ler.

O EEG detecta uma dinâmica relacionada à imagética motora.

Perturbar.

A AM-tACS modifica as condições oscilatórias do sistema.

Reler.

O algoritmo continua tentando identificar aquilo que emerge depois — e durante — essa perturbação.

Mas há algo ainda mais interessante:

o terceiro momento nunca retorna exatamente ao primeiro.

Depois da intervenção, estamos diante de uma nova configuração.

Essa lógica se aproxima daquilo que temos discutido sobre consciência como movimento.

O organismo não precisa ser compreendido como sucessão de fotografias independentes.

Pode ser compreendido como trajetória.

Um estado participa do próximo.

Uma perturbação modifica possibilidades.

Uma resposta altera aquilo que poderá acontecer depois.

Da interface cérebro–computador para uma interface Corpo-Território?

As BCIs nasceram, em grande medida, tentando estabelecer uma via de comunicação entre atividade cerebral e máquina.

Mas à medida que os sistemas se tornam mais complexos, talvez o próprio nome “interface cérebro–computador” comece a esconder parte do fenômeno.

Uma pessoa imagina um movimento.

Essa imaginação depende de aprendizagem, intenção, experiência corporal, propriocepção, memória e contexto.

O EEG registra apenas uma parte dessa configuração.

Um algoritmo seleciona determinadas características.

A máquina responde.

Essa resposta retorna ao organismo como informação sensorial.

O organismo percebe o resultado.

A percepção modifica sua estratégia.

E então um novo sinal é produzido.

Já não estamos apenas diante de um cérebro emitindo comandos para um computador.

Estamos diante de um circuito entre organismo, tecnologia e ambiente.

Um pequeno território artificial foi produzido.

E aquele território começa a participar daquilo que o organismo pode fazer.

Uma tecnologia que pode também produzir novas perguntas

As aplicações clínicas são evidentes.

BCIs vêm sendo estudadas intensamente em neuroreabilitação, particularmente após acidente vascular cerebral, e revisões recentes discutem seu potencial para recuperação motora e indução de plasticidade.

A tACS também vem sendo estudada como ferramenta capaz de modular oscilações e eventualmente favorecer processos plásticos, embora sua aplicação clínica ainda exija cautela, personalização e melhores evidências mecanísticas.

A combinação dessas duas tecnologias abre uma possibilidade fascinante:

não apenas detectar o estado neural associado à tentativa de movimento, mas potencialmente ajustar a intervenção em função do estado que está sendo detectado.

Não sabemos ainda até onde isso poderá chegar.

E é importante que o entusiasmo tecnológico não substitua a evidência.

Mas Vermehren e seus colegas resolveram uma condição necessária para que perguntas desse tipo possam ser investigadas de maneira muito mais rigorosa.

Esse é um mérito considerável.

Talvez observar nunca tenha sido apenas observar

No texto anterior desta série, encontramos duas pessoas atravessando juntas uma situação de exclusão.

Agora encontramos algo diferente:

um organismo, uma máquina, um algoritmo e uma corrente elétrica formando temporariamente um novo sistema experimental.

Em ambos os casos, a fronteira confortável do cérebro isolado começa a ficar menos simples.

Vermehren e colegas nos mostram que é possível continuar decodificando atividade neural mesmo enquanto alteramos deliberadamente as condições nas quais essa atividade está sendo produzida.

Mas seu trabalho permite uma pergunta ainda maior.

Se aquilo que chamamos de atividade cerebral muda conforme intervimos no sistema; se os efeitos da intervenção dependem do estado anterior; e se a própria resposta produz novas condições para o instante seguinte, então talvez não devamos perguntar apenas:

“O que esta oscilação representa?”

Podemos perguntar:

“O que esta oscilação consegue fazer dentro desta configuração?”

E talvez, mais adiante:

“Que novas possibilidades de Ser aparecem quando um Corpo-Território aprende a perceber e transformar a própria dinâmica através de uma tecnologia que também passou a fazer parte de seu território?”

Neste ponto, a interface deixa de ser apenas uma janela para o cérebro.

Ela passa a participar do acontecimento.

Referências

Vermehren, M., Peekhaus, N., Colucci, A., Wiskow, M., Haslacher, D., Curio, G., & Soekadar, S. R. (2026). Robust Brain–Computer Interface (BCI) Control During Frequency-Tuned Transcranial Alternating Current Stimulation (tACS). IEEE Transactions on Neural Systems and Rehabilitation Engineering, 34, 3983–3992. https://doi.org/10.1109/TNSRE.2026.3732552

Agboada, D., Zhao, Z., & Wischnewski, M. (2025). Neuroplastic effects of transcranial alternating current stimulation (tACS): from mechanisms to clinical trials. Frontiers in Human Neuroscience, 19, 1548478. https://doi.org/10.3389/fnhum.2025.1548478

Li, D., Li, R., Song, Y., Qin, W., Sun, G., Liu, Y., Bao, Y., Liu, L., et al. (2025). Effects of brain-computer interface based training on post-stroke upper-limb rehabilitation: a meta-analysis. Journal of NeuroEngineering and Rehabilitation. https://doi.org/10.1186/s12984-025-01588-x

Zhang, Y., Gao, Y., Zhou, J., Zhang, Z., Feng, M., & Liu, Y. (2025). Advances in brain-computer interface controlled functional electrical stimulation for upper limb recovery after stroke. Brain Research Bulletin, 226, 111354. https://doi.org/10.1016/j.brainresbull.2025.111354

Application and research progress of different frequency tACS in stroke rehabilitation: A systematic review. (2025). Brain Research, 1852, 149521. https://doi.org/10.1016/j.brainres.2025.149521






#eegmicrostates #neurogliainteractions #eegmicrostates #eegnirsapplications #physiologyandbehavior #neurophilosophy #translationalneuroscience #bienestarwellnessbemestar #neuropolitics #sentienceconsciousness #metacognitionmindsetpremeditation #culturalneuroscience #agingmaturityinnocence #affectivecomputing #languageprocessing #humanking #fruición #wellbeing #neurophilosophy #neurorights #neuropolitics #neuroeconomics #neuromarketing #translationalneuroscience #religare #physiologyandbehavior #skill-implicit-learning #semiotics #encodingofwords #metacognitionmindsetpremeditation #affectivecomputing #meaning #semioticsofaction #mineraçãodedados #soberanianational #mercenáriosdamonetização
Author image

Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States