Jackson Cionek
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Antes de aprender o valor do dinheiro, quem ensinou seu cérebro a confiar nele?

Antes de aprender o valor do dinheiro, quem ensinou seu cérebro a confiar nele?

Neurociência Decolonial, pré-linguagem, dívida, juros, Drex Cidadão e outras possibilidades de bem-estar.

1. O dinheiro ainda não existe para essa criança

Imagine uma criança de dois anos esperando o alimento.

Ela não conhece juros, bancos, inflação ou dívida pública.

Mas reconhece aproximações. Percebe quem costuma cuidar dela. Aprende relações entre espera, necessidade e satisfação.

Seu organismo constrói expectativas antes de conseguir explicá-las verbalmente.

Agora imagine essa criança aos quatro anos, acompanhando um adulto ao supermercado.

O adulto aproxima um cartão de uma máquina.

Aparecem números.

Os alimentos são levados para casa.

A criança talvez comece a compreender que aquele gesto participa da obtenção de coisas importantes.

Mas de onde vieram os números?

Por que algumas famílias conseguem comprar alimentos enquanto outras precisam escolher o que deixar na prateleira?

Antes de compreender o dinheiro, já estamos aprendendo como o mundo distribui possibilidades.

2. O que aprendemos antes das palavras?

A Neurociência do desenvolvimento investiga como experiências de cuidado, aprendizagem e interação participam da formação de expectativas e da regulação emocional.

Nos primeiros anos, crianças começam a reconhecer trocas, propriedades, compartilhamento e diferenças entre necessidades e desejos.

Isso não significa que já compreendam os mecanismos monetários.

Também não autoriza afirmar que pobreza produza um destino cerebral inevitável.

Na BrainLatam, propomos investigar a pré-linguagem como terreno de experiências a partir do qual serão construídas classificações posteriores.

Ciência, Política, Religião e Economia não nascem como instituições prontas no cérebro.

Mas aprender regularidades, negociar relações, atribuir significados e utilizar recursos envolve capacidades que precedem esses nomes.

O organismo já precisava viver antes de aprender a explicar como a sociedade organizava sua vida.

3. Quando a confiança se transforma em valor monetário

Imagine entregar uma nota de cem reais para comprar alimentos.

O papel não contém cem reais em comida.

Seu poder de compra depende de uma organização social, econômica e institucional que sustenta sua aceitação.

Essa confiança monetária não é idêntica à confiança infantil nos cuidadores.

Mas ambas permitem investigar como expectativas são construídas e atualizadas pela experiência.

Chamamos de fé no dinheiro, metaforicamente, a convicção cotidiana de que determinada moeda continuará sendo aceita.

Uma criança aprende a usar dinheiro muito antes de compreender sua criação.

E talvez muitos adultos continuem sem saber de onde surgem os depósitos bancários.

Será que aprendemos a confiar no dinheiro antes de aprender a questionar quem pode criá-lo?

4. A maior parte do dinheiro bancário nasce da dívida

Imagine solicitar um empréstimo de cem mil reais.

O banco aprova a operação.

Registra um crédito contra você e cria um depósito em sua conta.

Esse depósito constitui dinheiro bancário novo.

Você poderá utilizá-lo para pagar máquinas, trabalhadores ou fornecedores.

Mas também assumiu uma dívida que deverá devolver conforme o contrato.

O Banco da Inglaterra descreve explicitamente esse mecanismo: empréstimos bancários criam depósitos.

O sistema não depende apenas de repassar poupanças previamente depositadas.

Entretanto, existem outras formas de moeda e criação monetária.

A maior parte do dinheiro utilizado em contas bancárias nasce associada a obrigações financeiras. Isso não significa que toda moeda precise nascer de um empréstimo privado.

5. E se o dinheiro chegasse sem criar uma dívida pessoal?

Agora imagine outra arquitetura.

Uma autoridade pública emite moeda digital e realiza uma transferência definitiva ao cidadão.

A pessoa recebe recursos sem contratar empréstimo.

Não há prestação individual a pagar nem juros decorrentes daquela transferência.

Na BrainLatam, chamamos essa hipótese de Drex Cidadão: crédito monetário sem débito do beneficiário.

Isso não significa ausência de contabilidade, custos ou limites econômicos.

A emissão precisaria de regras legais, governança, proteção monetária e avaliação inflacionária.

O Drex oficial do Banco Central não corresponde a esse programa.

Propomos investigar uma CBDC pública de varejo com finalidade distributiva.

Por que não estudar formas de ampliar a circulação monetária sem exigir que cada novo beneficiário comece sua participação como devedor?

6. O Estado não é uma economia familiar

Imagine uma família diante das contas do mês.

Ela precisa receber renda, utilizar reservas ou contratar crédito.

Não possui autoridade para emitir a moeda nacional.

O Estado brasileiro opera em condições diferentes.

Participa da organização monetária por meio de instituições públicas, tributação, despesas, dívida soberana e Banco Central.

Isso não significa que possa gastar sem limites.

Existem normas fiscais, riscos de inflação, restrições cambiais e capacidades produtivas concretas.

Mas comparar suas operações diretamente ao orçamento doméstico produz uma analogia incompleta.

Uma família não administra o sistema monetário.

O Estado precisa avaliar não apenas de onde vêm os recursos financeiros, mas quais capacidades reais sua política monetária consegue mobilizar e sustentar.

7. Quem ganha quando o dinheiro rende juros elevados?

O Brasil mantém meta de inflação de 3%.

Em setembro de 2026, a Selic foi reduzida para 13,75% ao ano.

A estabilidade dos preços protege o poder de compra, especialmente de quem possui pouca capacidade de proteção financeira.

Mas juros elevados também encarecem financiamentos e afetam rendimentos de ativos financeiros.

Os efeitos são distribuídos de maneira desigual.

Na BrainLatam, discutimos essa assimetria em O Brasil como Coisa de Ricos.

A meta não prova que exista uma decisão secreta para enriquecer investidores.

Mas seus custos e benefícios distributivos merecem investigação pública.

Por que avaliamos tão cuidadosamente a inflação e nem sempre com a mesma atenção as possibilidades de vida restringidas pelo custo do crédito?

8. O ótimo local que aprendemos a defender

Imagine crescer ouvindo que toda dívida pública funciona como dívida familiar.

Mais tarde, você encontra especialistas que repetem a mesma comparação.

Ela parece evidente.

Oferece segurança intelectual.

Em Ótimos locais - quando uma crença funciona bem demais, propomos uma metáfora: ideias podem funcionar tão bem em determinado contexto que deixam de permitir outras perguntas.

Isso também acontece quando valores religiosos, políticos ou econômicos são confundidos com premissas científicas indiscutíveis.

A fé pessoal não impede pesquisa rigorosa.

O problema surge quando qualquer convicção fecha antecipadamente o campo das hipóteses.

Um modelo pode funcionar sem representar todas as possibilidades existentes.

9. O valor do dinheiro medido pelo bem-estar

Imagine acompanhar aquela criança até a adolescência.

Sua família conseguiu alimentação, moradia e condições para estudar?

Precisou enfrentar insegurança constante?

Que oportunidades chegaram até ela?

Uma meta-análise publicada em 2024 encontrou associação entre escassez financeira e pior desempenho em tarefas cognitivas, embora a relação variasse segundo fatores educacionais e metodológicos.

Não significa que a pobreza determine a inteligência.

Mostra a importância de investigar condições materiais conjuntamente com processos cognitivos.

Na BrainLatam, propomos avaliar a economia também pelo bem-estar: saúde, autonomia, descanso, aprendizagem e participação.

O valor social do dinheiro não pode ser compreendido apenas pelos juros que remunera, mas também pelas condições de vida que permite sustentar.

10. Rendimento Bioma: a riqueza que não aparece na conta

Imagine uma floresta conservando água, biodiversidade e fertilidade dos solos.

Essas condições sustentam produção e existência humana.

Mas quanto de seu valor aparece nas transações comerciais?

O Rendimento Bioma propõe investigar mecanismos de reconhecimento econômico da sustentação ecológica.

Isso poderia envolver financiamento territorial, conservação verificada e distribuição transparente.

O Rendimento-Estado, em nossa formulação, possui finalidade distinta: reconhecer a participação econômica individual no Estado independentemente do emprego.

Uma arquitetura de moeda pública poderia ser estudada como instrumento distributivo.

Nenhum desses mecanismos dispensa financiamento, avaliação ou governança.

O pertencimento e a conservação podem tornar-se perguntas econômicas sem precisarmos reduzir toda riqueza à venda de mercadorias.

11. Produção de Excessos: consumir menos e viver melhor

Imagine duas indústrias.

Uma amplia continuamente a extração de recursos para vender produtos descartáveis.

Outra investe em tecnologia, durabilidade, reparação e serviços especializados.

A segunda poderia gerar mais valor agregado com menor utilização de matéria-prima.

Na BrainLatam, a Produção de Excessos propõe investigar sobretaxas sobre atividades que ultrapassem limites ecológicos ou ampliem desperdícios.

Essas medidas exigiriam critérios públicos e avaliação de impactos sobre empregos, preços e competitividade.

Uma economia de maior valor agregado poderia fortalecer industrialização, conhecimento e serviços.

Mas reduzir a intensidade material não garante, automaticamente, menor impacto total.

Precisamos medir os resultados.

A pergunta não é como produzir menos possibilidades. É como produzir mais riqueza social consumindo menos recursos desnecessários.

12. Pernambuco pode fazer perguntas que ainda não existem

Pedro Carelli, Mauro Copelli e Nivaldo Vasconcelos participam do diálogo Neurobucano entre Física, Computação e Neurociência.

Essas áreas possuem instrumentos sofisticados para estudar sistemas complexos.

Mas quais perguntas sobre bem-estar poderiam surgir dos territórios latino-americanos?

Na BrainLatam, propomos investigar Tekoha/APUS e Consciência 5D como formulações conceituais abertas à avaliação científica.

Não são mecanismos cerebrais já demonstrados.

A ciência colaborativa poderia reunir pesquisadores, comunidades e instituições para investigar experiências econômicas e condições de vida com métodos adequados.

Não queremos que a Neurociência decida qual economia devemos adotar. Queremos que contribua para compreender como diferentes economias afetam o bem-estar das pessoas.

13. O Despertar de Tudo começa com outra pergunta

David Graeber e David Wengrow questionam, em O Despertar de Tudo, a ideia de que nossas instituições atuais resultaram de uma trajetória histórica inevitável.

Ailton Krenak e Antônio Bispo dos Santos também nos convidam a reconsiderar riqueza, reciprocidade e território.

Outras formas de organização existiram.

Outras ainda podem ser investigadas.

Volte à criança que observava o cartão no supermercado.

Ela aprenderá o que é dinheiro.

Mas precisará acreditar que a arquitetura monetária que encontrou é a única possível?

Que educação econômica permitiria a essa criança compreender dívida, crédito, juros e distribuição antes de aceitar como inevitável o mundo que recebeu?

Recortamos para saber, não para Ser.

FAZER É CIÊNCIA. JULGAR É POLÍTICA.

Deixa vir. Deixa ficar. Deixa Ser. Pode desobedecer. Deixa ir.

Jiwasa: que o dinheiro possa servir à vida, e que cada Corpo-Território conserve a possibilidade de imaginar outros futuros.

Referências científicas e intelectuais  

As referências acompanham a trajetória da narrativa: o desenvolvimento da confiança na infância, a criação monetária por crédito, os limites dos modelos econômicos e a investigação latino-americana de outras condições de bem-estar.

1. KIMZAN, Ilayda; YÜKSEK USTA, Semiha (2024). Children understand economics too: knowledge and experience of basic financial concepts. Early Child Development and Care.

A pesquisa com crianças pré-escolares identifica conhecimentos iniciais sobre dinheiro, compras, poupança e empréstimos. Evidencia que conceitos econômicos começam a ser aprendidos na infância, embora mecanismos monetários abstratos ainda não sejam plenamente compreendidos.

Get Access

2. DE ALMEIDA, Filipa et al. (2024). Financial scarcity and cognitive performance: A meta-analysis. Journal of Economic Psychology, 101, 102702.

A meta-análise reuniu 29 conjuntos de dados e 111.852 participantes, encontrando uma associação negativa entre escassez financeira e desempenho cognitivo, com heterogeneidade e fatores moderadores importantes. Não demonstra que a pobreza determine a capacidade intelectual individual.

ScienceDirect

3. McLEAY, Michael; RADIA, Amar; THOMAS, Ryland (2014). Money Creation in the Modern Economy. Bank of England Quarterly Bulletin.

Embora anterior a 2021, esta referência institucional é fundamental: demonstra que bancos comerciais criam depósitos ao conceder empréstimos. Permite distinguir criação de moeda bancária, endividamento e operações de moeda pública.

the UK's central bank

4. BANCO CENTRAL DO BRASIL (2024). Resolução CMN nº 5.141 - Meta de inflação.

Estabelece a meta contínua de inflação de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual. É a referência para analisar o regime monetário brasileiro sem atribuir sua criação a intenções não demonstradas.

Banco Central do Brasil

5. BANCO CENTRAL DO BRASIL (2026). Ata do Copom - Setembro de 2026.

Registra a redução da Selic para 13,75% ao ano e apresenta a justificativa monetária da decisão. Seus efeitos distributivos precisam ser examinados separadamente, considerando devedores, poupadores, atividade econômica e preços.

Copom

6. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Piloto Drex.

Documenta a experimentação oficial de transações e liquidação de ativos digitais. As operações dos usuários finais são simuladas, e o projeto não constitui o programa de emissão distributiva direta proposto como Drex Cidadão.

Banco Central do Brasil

7. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Drex Cidadão: dinheiro como metabolismo do território.

Propõe inverter a lógica de acesso inicial à circulação monetária, investigando crédito público diretamente ao cidadão sem obrigação individual de reembolso. É uma hipótese de arquitetura monetária, não uma política já validada.

brainlatam

8. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). O Brasil como Coisa de Ricos.

Questiona a distribuição desigual de condições para interpretar e influenciar decisões públicas, oferecendo fundamentos para examinar os efeitos sociais das regras econômicas.

brainlatam

9. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Ótimos locais - quando uma crença funciona bem demais.

Desenvolve a metáfora do ótimo local semântico-afetivo para investigar como uma crença funcional pode restringir a exploração de alternativas, inclusive na compreensão da economia.

quando uma crença funciona bem demais

10. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Quando o Bioma também entra na decisão.

Relaciona produção, necessidades sociais, capacidade ecológica e restituição territorial, aprofundando o Rendimento Bioma e a discussão da Produção de Excessos.

brainlatam

11. BRAINLATAM — CIONEK, Jackson (2026). Produzir mais até quando? Quando o excesso começa a produzir menos futuro.

Propõe avaliar a produção excedente segundo recursos finitos, suficiência, agregação de valor e regeneração, incluindo possíveis instrumentos de remuneração ecológica.

Eleições 2026 Presidente

12. KRENAK, Ailton (2022). Futuro ancestral. Companhia das Letras.

O pensamento indígena brasileiro propõe outras relações entre humanidade, território e continuidade da vida, convidando a investigar o que nossos indicadores econômicos deixam de reconhecer.

13. BISPO DOS SANTOS, Antônio (2023). A terra dá, a terra quer. Ubu Editora/Piseagrama.

Nêgo Bispo desenvolve perspectivas quilombolas de confluência, reciprocidade e contracolonização, ampliando o repertório de perguntas sobre produção, valor e pertencimento.

14. SERAFIM, Felipe; CARVALHO, Tawan; COPELLI, Mauro; CARELLI, Pedro (2024). Maximum-entropy-based metrics for quantifying critical dynamics in spiking neuron data. Physical Review E.

A investigação realizada na UFPE demonstra a capacidade de pesquisadores pernambucanos de desenvolver métodos quantitativos para compreender dinâmicas neurais, oferecendo uma base de colaboração interdisciplinar para novas perguntas científicas.


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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States