Jackson Cionek
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O Homem de Madeira - Quando a narrativa se torna o próprio Ser

O Homem de Madeira - Quando a narrativa se torna o próprio Ser

Da fé cega ao Yãy hã mĩy: podemos pertencer, acreditar e transcender-se Ser.

Você já sentiu alguém questionar quem você é?

Pense em uma pessoa que você ama.

Talvez ela tenha lhe ensinado uma oração, um gesto de respeito, uma opinião política ou uma maneira de enxergar o mundo.

Você aprendeu observando. Repetiu palavras. Imitou comportamentos. Recebeu carinho quando conseguiu participar daquela história.

Agora imagine alguém questionando profundamente essa crença.

O que acontece em seu corpo?

Talvez uma lembrança apareça. Uma emoção ganhe força. Uma vontade de defender aquela pessoa, aquela história, aquele pertencimento.

Estamos começando a conhecer nosso Homem de Madeira.

Ele aprendeu a Ser imitando.

E encontrou uma narrativa tão importante que passou a reconhecê-la como sua própria identidade.

Quero investigar isso com você, porque talvez todos carreguemos alguma madeira em nossa história.

Como nasce um Homem de Madeira?

Imagine uma criança aprendendo o nome das coisas.

Família. Deus. Pátria. Ciência. Dinheiro. Verdade.

Cada palavra chega acompanhada de pessoas, gestos, emoções e experiências.

A criança aprende quais histórias aproximam os amigos, quais comportamentos recebem reconhecimento e quais símbolos representam seu grupo.

A madeira de nosso personagem começa a ganhar forma.

Cada camada representa uma experiência incorporada: um hábito, uma crença, uma memória, uma expectativa.

Com o tempo, certas narrativas oferecem tanta segurança que passam a organizar aquilo que ele espera encontrar.

Um dia, nosso Homem de Madeira encontra alguém com uma interpretação diferente.

E sente algo extraordinariamente intenso.

Aquela conversa parece tocar diretamente sua existência.

Quando uma narrativa participa profundamente do nosso pertencimento, questioná-la pode ser sentido como questionar o próprio Ser.

O ótimo local da fé cega

Imagine encontrar um lugar onde tudo parece fazer sentido.

Seus amigos compartilham suas crenças. Suas experiências confirmam expectativas. As palavras conhecidas oferecem respostas e acolhimento.

É um lugar confortável.

Na BrainLatam, chamamos essa configuração, por analogia com problemas de otimização, de ótimo local semântico-afetivo.

Crenças, emoções, memórias e reconhecimento social formam uma região estável da experiência.

Nosso Homem de Madeira encontrou esse lugar.

Sua narrativa funciona tão bem que cada acontecimento começa a receber uma interpretação familiar.

A fé cega aparece, em nossa metáfora, quando a identidade se torna rigidamente dependente dessa interpretação.

Isso pode acontecer com narrativas religiosas, científicas, econômicas, ideológicas ou políticas.

Agora pense comigo:

Como experimentar uma nova interpretação quando a narrativa conhecida também sustenta nossos vínculos mais preciosos?

O cérebro aprende, prevê e sente

A neurociência oferece caminhos para investigar essa experiência.

Nosso organismo aprende regularidades, produz expectativas e atualiza interpretações conforme encontra novos acontecimentos.

Memórias, emoções e vínculos sociais participam desses processos.

Pesquisas sobre identidade social e atualização de crenças investigam como a pertença a grupos influencia a avaliação de informações.

Podemos estudar aspectos dessas relações com EEG, acompanhando respostas elétricas durante tarefas de expectativa, conflito e avaliação.

Com fNIRS, podemos investigar mudanças hemodinâmicas corticais associadas a determinadas tarefas e interações sociais.

Cada instrumento oferece medidas específicas para construir e testar hipóteses.

Na perspectiva BrainLatam, esses processos participam da configuração metabólica do Corpo-Território.

Um estímulo pode participar dessa configuração enquanto a atenção está voltada para outra experiência.

Quando ganha prioridade atencional, sua influência pode se ampliar.

Assim, uma palavra associada à identidade pode mobilizar lembranças, emoções e respostas corporais intensas.

A tela acrescenta outra narrativa

Agora imagine nosso Homem de Madeira usando um celular.

Ele encontra um vídeo que confirma sua crença.

Compartilha. Recebe comentários. Sente reconhecimento.

Logo aparecem outras publicações semelhantes.

Cada imagem foi selecionada, processada e apresentada em pixels.

Seu Corpo-Território transduz os estímulos luminosos e participa da experiência percebida.

A percepção da realidade já constitui um recorte.

Na tela, encontramos um recorte tecnológico desse recorte, organizado também por escolhas editoriais e sistemas de recomendação.

Aqui lembramos uma provocação BrainLatam:

Somos massificados pelas escolhas que não tivemos.

Nosso Homem de Madeira pode ampliar suas possibilidades procurando outras experiências, fontes e interpretações.

A pergunta deixa de ser apenas em que acreditar.

Passa a incluir quais possibilidades conseguimos conhecer.

Yãy hã mĩy: imitar para transformar

Agora quero aproximar nosso personagem de conhecimentos ancestrais latino-americanos.

Entre os Tikmũ'ũn, também conhecidos como Maxakali, encontramos o Yãy hã mĩy.

Na exposição Mundos Indígenas, da UFMG, Isael e Sueli Maxakali apresentam relações entre imitação e transformação envolvendo animais, seres e posições vividas pela comunidade.

Essa contribuição merece ser conhecida em seus próprios contextos culturais, espirituais e territoriais.

A partir desse diálogo, desenvolvemos na BrainLatam uma interpretação filosófica estendida:

Imitar Ser para transcender-se Ser.

Imagine uma criança experimentando o movimento de um animal.

Ela ajusta a postura, percebe ritmos, experimenta gestos e aprende com aquela relação.

A imitação oferece possibilidades de transformação.

Agora pense em nosso Homem de Madeira.

Ele também aprendeu imitando.

E pode continuar aprendendo ao experimentar outras posições.

Dois caminhos de uma mesma história

Nosso Homem de Madeira aprendeu crenças, gestos e costumes por imitação.

Encontrou reconhecimento e construiu pertencimento.

A narrativa tornou-se um ótimo local.

O Yãy hã mĩy estendido nos convida a experimentar outro movimento.

Podemos utilizar aquilo que aprendemos para compreender outras experiências e ampliar nossas possibilidades de Ser.

Imagine conversar com alguém cuja fé seja diferente da sua.

Você escuta suas histórias, conhece seus vínculos e compreende parte da experiência que sustenta suas palavras.

Talvez descubra outra maneira de formular uma pergunta.

Seu próprio pertencimento participa dessa transformação.

O Homem de Madeira aprendeu a Ser imitando. O Yãy hã mĩy nos convida a continuar imitando para transcender-se Ser.

A Mata Atlântica e a liberdade de movimento

Quero levar você novamente a uma experiência que vivi.

Entrei na Mata Atlântica descalço, vestindo apenas um calção.

Saí da trilha e encontrei raízes, galhos e vegetação emaranhada.

Cuidava da minha pele enquanto procurava preservar cada galho.

Em alguns momentos precisei rastejar.

Minhas mãos encontravam apoios. Meus pés reconheciam o terreno. Cada movimento revelava outras passagens.

Foi ali que experimentei intensamente um princípio:

Perceber o que se pode.

Agora imagine o Homem de Madeira ao meu lado.

A cada nova posição, ele encontra outra possibilidade.

Sua experiência anterior oferece conhecimentos para o próximo movimento.

E a floresta participa de sua aprendizagem.

Talvez transcender-se Ser aconteça assim: experimentamos outra configuração e ampliamos nosso horizonte de ação.

Deixa vir. Deixa Ser. Pode desobedecer.

Na BrainLatam, propomos um percurso:

Deixa vir → Deixa ficar → Deixa Ser → Pode desobedecer → Deixa ir.

Imagine uma ideia diferente chegando à sua experiência.

Você permite que ela seja conhecida.

Observa seus significados, suas emoções e as possibilidades que oferece.

Pode experimentar outra posição.

Pode questionar a narrativa recebida e construir uma interpretação própria.

E pode seguir carregando os conhecimentos produzidos nesse movimento.

Chamamos essa possibilidade de transcender-se Ser.

Podemos respeitar nossos antepassados sem reduzir nosso Ser aos limites do que lhes foi possível perceber.

Nossos vínculos também podem participar de novas formas de convivência.

Jiwasa: quem transforma quem?

Observe como você participou desta leitura.

Talvez tenha lembrado de uma crença, de uma conversa ou de alguém que ama.

Essas experiências participam da interpretação que estamos construindo.

Na BrainLatam, investigamos o Jiwasa como agência compartilhada.

Uma pessoa oferece uma experiência. Outra acrescenta uma diferença. O encontro permite que ambas experimentem novas configurações.

O Corpo-Território, unidade mínima e parte indivisível do Estado em nossa proposta, participa dessa construção coletiva.

A IA Personalíssima, o Drex Cidadão, o Rendimento Bioma e a investigação da Produção de Excessos compõem caminhos para estudar instituições que ampliem participação, autonomia, sustentação da vida e responsabilidade ecológica.

Quem você poderá Ser amanhã?

Agora reencontre nosso Homem de Madeira.

Ele carrega histórias, crenças e vínculos que participaram de sua formação.

Uma nova conversa oferece outra perspectiva.

Ele experimenta.

Sua história continua participando de quem ele é.

O passado oferece conhecimentos. O presente permite perceber e fazer. O futuro participa das possibilidades que começamos a construir.

Somos herdeiros do passado, participantes do presente e corresponsáveis pelos futuros que tornamos possíveis para os próximos Corpos-Territórios.

Talvez a liberdade mais profunda esteja justamente nesse movimento.

Pertencer. Aprender. Experimentar. Transformar-se.

E agora a pergunta também é sua:

Se aprendemos a Ser imitando aqueles que amamos, quais novas possibilidades podemos experimentar para que nossos filhos também sejam livres para transcender-se Ser?

Referências científicas e culturais comentadas

Privilegiei pesquisadores, artistas e autores indígenas latino-americanos, incluindo fontes produzidas pelos próprios Tikmũ'ũn. As referências científicas complementares ajudam a separar os mecanismos investigáveis da elaboração filosófica BrainLatam.

Isael Maxakali, Sueli Maxakali e colaboradores Tikmũ'ũn (2023). Memória indígena e registros sonoros — à escuta de documentos tikmũ'ũn. Apresenta conhecimentos relacionados à imitação, à transformação, aos cantos e aos seres dos mundos Tikmũ'ũn. É uma referência central para fundamentar o diálogo com o Yãy hã mĩy a partir de vozes indígenas.

Isael Maxakali, Sueli Maxakali e demais curadores indígenas (2025). Mundos Indígenas — UFMG. A exposição apresenta cosmologias e experiências de povos indígenas a partir de suas próprias perspectivas, incluindo os mundos Tikmũ'ũn, Xakriabá, Yanomami, Ye’kwana e Pataxoop.

Rosângela Pereira de Tugny e autores Tikmũ'ũn (2013–2014). Cantos dos povos morcego e hemex-espíritos e mõgmõka yõg kutex. Obras coletivas que registram repertórios, narrativas, cantos e conhecimentos Tikmũ'ũn, valorizando a participação de narradores, escritores, ilustradores e lideranças indígenas.

Silvia Rivera Cusicanqui (2018). Un mundo ch'ixi es posible. A socióloga boliviana investiga a coexistência de diferenças, experiências e temporalidades, contribuindo para pensar pertencimento e transformação.

Ailton Krenak (2022). Futuro ancestral. Relaciona ancestralidade, continuidade da vida e território, ampliando a reflexão sobre herança cultural e possibilidades futuras.

Van Bavel, J. J. et al. (2024). Updating the identity-based model of belief: From false belief to the spread of misinformation. Current Opinion in Psychology. Consultar artigo. Examina as relações entre identidade social, pertencimento, avaliação de informações e atualização de crenças.

BrainLatam (2026). Ótimos locais — quando uma crença funciona bem demais. Desenvolve a metáfora dos ótimos locais semântico-afetivos, relacionando estabilidade de crenças, expectativas e pertencimentos.

BrainLatam (2025). Yãy hã mĩy — Imitar-se Ser para Transcender-se Ser. Apresenta a interpretação estendida da BrainLatam sobre imitação, aprendizagem e transformação da percepção de Ser.

BrainLatam (2026). Jiwasa — pertencer sem permanecer na mesma posição. Desenvolve a agência compartilhada como possibilidade de experimentar outras configurações individuais e coletivas.

O texto consolida a complementaridade que estamos desenvolvendo: a fé cega como estabilização em um ótimo local e o Yãy hã mĩy como inspiração para experimentar e transcender-se Ser.

O conhecimento Tikmũ'ũn participa como fonte cultural própria; a neurociência contribui com métodos para investigar processos de aprendizagem, atenção e crença; e a BrainLatam apresenta sua interpretação filosófica como uma proposta aberta à investigação.




BRAINLATAM · W43/2026 · O PROBLEMA DOS 3 CORPOS






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Jackson Cionek

New perspectives in translational control: from neurodegenerative diseases to glioblastoma | Brain States