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NIRS/fNIRS em Depressão: HD-tDCS, Controle Cognitivo e Conectividade Pré-Frontal

NIRS/fNIRS em Depressão: HD-tDCS, Controle Cognitivo e Conectividade Pré-Frontal

A depressão maior não aparece apenas como alteração de humor. Ela também pode envolver dificuldade de atenção, lentidão para decidir, menor flexibilidade cognitiva, ruminação e perda de energia para reorganizar a própria vida. O artigo de Hernández-Sauret, Garcia-Castro e Redolar-Ripoll parte exatamente desse ponto: entender como duas regiões pré-frontais — DLPFC e VLPFC — participam de formas diferentes do controle cognitivo em pessoas com depressão.

A pergunta científica do estudo é muito boa: estimular o córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo ou o córtex pré-frontal ventrolateral esquerdo produz efeitos diferentes sobre humor, controle cognitivo e conectividade pré-frontal em pacientes com depressão maior? Para responder, os pesquisadores usaram HD-tDCS combinada com fNIRS em repouso, além de escalas clínicas e tarefas cognitivas. O estudo incluiu 26 pacientes, divididos entre estimulação no DLPFC, estimulação no VLPFC ou condição sham, com 10 sessões consecutivas de HD-tDCS ao longo de duas semanas.

Esse desenho experimental merece elogio. Os pesquisadores não ficaram apenas na pergunta “melhorou ou não melhorou a depressão?”. Eles tentaram observar três camadas ao mesmo tempo: sintomas depressivos, desempenho cognitivo e reorganização funcional pré-frontal. Isso é muito importante, porque a depressão não é somente uma experiência subjetiva; ela também altera a forma como a pessoa sustenta metas, inibe respostas automáticas, muda estratégias e mantém energia cognitiva para agir.

A HD-tDCS foi aplicada com equipamento Starstim®, da Neuroelectrics, usando montagem 4×1 em anel. No DLPFC, o ânodo foi posicionado em F3; no VLPFC, em AF7. A estimulação foi de 2 mA por 20 minutos, com ramp-up e ramp-down, durante 10 sessões. A figura da página 6 mostra a simulação de distribuição de corrente para VLPFC e DLPFC, deixando claro que o estudo buscou diferenciar espacialmente os alvos pré-frontais.

A parte de fNIRS também é muito relevante para a BrainLatam2026. O estudo usou NIRSport2, da NIRx Medical Technologies, com dois comprimentos de onda, 760 nm e 850 nm, taxa de amostragem de 5,1 Hz, 16 fontes e 16 detectores posicionados para cobrir o córtex frontal. Além disso, foram usados canais de curta distância para regredir sinais extracerebrais, algo importante para melhorar a qualidade da interpretação hemodinâmica.

Nos resultados clínicos, a estimulação no DLPFC mostrou melhora mais ampla, precoce e sustentada. Houve redução significativa dos sintomas depressivos logo após a intervenção e também no seguimento de um mês. O grupo VLPFC apresentou melhora mais tardia, aparecendo principalmente no follow-up. Já o grupo sham não apresentou o mesmo padrão de benefício clínico consistente.

Nas tarefas cognitivas, o DLPFC apareceu mais ligado a ganhos em funções executivas, flexibilidade e controle de interferência. O estudo relata melhora no Trail Making Test, redução de erros no Wisconsin Card Sorting Task e melhora em condições do Stroop. Já o VLPFC pareceu se relacionar mais especificamente com adaptação ao conflito no Attention Network Test, sugerindo um efeito mais seletivo e tardio sobre controle inibitório.

O resultado de fNIRS é especialmente interessante: não houve uma mudança global simples dentro de cada grupo, mas no seguimento de um mês o grupo DLPFC apresentou maior grau de conectividade pré-frontal do que o grupo sham e também maior conectividade do que o grupo VLPFC. Isso sugere que a estimulação do DLPFC pode produzir uma reorganização funcional mais duradoura, não necessariamente imediata.

Na leitura BrainLatam2026, a gente pode dizer que o DLPFC parece funcionar como uma porta de reorganização do Eu Tensional quando a pessoa está presa em baixa flexibilidade, baixa energia cognitiva e menor capacidade de atualização. A depressão, nessa lente, não é reduzida a “falta de força de vontade” nem apenas a “química cerebral”. Ela aparece como uma reorganização difícil entre corpo, atenção, memória, ação e pertencimento.

O fNIRS ajuda justamente porque mede a variação hemodinâmica cortical — oxi-hemoglobina e desoxi-hemoglobina — enquanto a gente observa como o pré-frontal sustenta ou reorganiza redes. Ele não mede pensamento diretamente, mas permite acompanhar se o cérebro está criando uma arquitetura funcional mais integrada ou mais rígida. No artigo, a conectividade do DLPFC no follow-up sugere uma possível reorganização lenta, talvez mais próxima de plasticidade funcional do que de efeito imediato de sessão.

A lente-avatar deste blog pode ser Tekoha + APUS. Tekoha como território interno, APUS como corpo-território. A depressão pode ser vista como um corpo que perdeu parte da confiança para se mover no mundo. O DLPFC, então, não seria apenas “uma região executiva”, mas uma espécie de eixo de reentrada para planejamento, escolha, inibição de padrões automáticos e retomada de futuro.

A crítica decolonial generosa é que o estudo é excelente, mas ainda observa a depressão dentro de um recorte bastante individual. A BrainLatam2026 ampliaria a pergunta: o que acontece com a conectividade pré-frontal quando a pessoa, além de receber neuromodulação, recupera pertencimento, segurança social, respiração regulada e possibilidade concreta de reorganizar a vida?

Um próximo desenho experimental poderia combinar HD-tDCS + fNIRS + EEG + HRV/RMSSD + respiração + GSR + EMG. O fNIRS observaria conectividade e oxigenação pré-frontal; o EEG poderia acompanhar controle atencional e marcadores de processamento cognitivo; HRV/RMSSD e respiração indicariam regulação autonômica; GSR mostraria ativação simpática; EMG facial ou cervical poderia revelar tensões corporais silenciosas associadas aos Eus Tensionais.

A ponte com o DREX Cidadão aparece quando a gente percebe que saúde mental também depende de metabolismo social. Um cidadão sem segurança mínima, sem renda, sem pertencimento e sem horizonte vive em tensão contínua. O DREX Cidadão, como proposta de metabolismo do Estado, poderia reduzir anergia social e permitir mais Zona 2: mais fruição, mais metacognição, mais capacidade crítica e mais reorganização da vida.

O próprio artigo reconhece limites importantes: amostra pequena, divisão em três grupos e necessidade de estudos maiores e seguimentos mais longos. Por isso, os achados são promissores, mas ainda preliminares. A força do trabalho está em mostrar que DLPFC e VLPFC não devem ser tratados como se fossem a mesma coisa. A estimulação pré-frontal precisa ser cada vez mais precisa, tanto no alvo cortical quanto na pergunta clínica.

Fechamento:
Este estudo mostra que a depressão pode ser investigada como uma dificuldade de reorganização entre humor, controle cognitivo e conectividade pré-frontal. A HD-tDCS testa a modulação causal; o fNIRS mostra a dinâmica hemodinâmica; e a BrainLatam2026 amplia a pergunta: não basta saber qual região estimular. A gente precisa perguntar que corpo, que território, que pertencimento e que política pública permitem ao cérebro voltar a respirar em Zona 2.

Referência única
Hernández-Sauret, A., Garcia-Castro, G., & Redolar-Ripoll, D. E. (2026). Dissociating the Role of Dorsolateral Prefrontal Cortex and Ventrolateral Prefrontal Cortex in Cognitive Control in Depression: A Combined HD-tDCS and fNIRS Study. Brain Topography, 39, 2. https://doi.org/10.1007/s10548-025-01157-4












Jackson Cionek










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