EEG, fNIRS e a Materialidade dos Espaços
15/06/2026 at 08:06:36
Author: Jackson Cionek
15/06/2026 at 08:06:36
Author: Jackson Cionek
Como investigar cientificamente os espaços de representação?
Ao longo desta série desenvolvemos uma proposta simples e, ao mesmo tempo, profunda:
O Corpo-Território constrói espaços internos de representação.
Esses espaços organizam percepção.
Organizam atenção.
Organizam memória.
Organizam pertencimento.
Organizam tempo vivido.
Organizam tecnologias.
Organizam a própria experiência de existir.
Chamamos esses espaços de Utupe quando representados internamente.
Quando essas representações passam a participar das emoções, utilizamos o termo Pei Utupe.
Quando manifestam seu brilho, sua atratividade, sua capacidade de capturar atenção e reorganizar a experiência, utilizamos o termo Xapiri.
Esses conceitos ajudam a descrever fenômenos vividos.
Surge então uma pergunta inevitável:
Como investigar cientificamente esses espaços?
O desafio das ciências da experiência
Nenhum pesquisador observa diretamente uma memória.
Nenhum pesquisador observa diretamente uma emoção.
Nenhum pesquisador observa diretamente uma crença.
Nenhum pesquisador observa diretamente um pensamento.
O que observamos são rastros.
Alterações fisiológicas.
Alterações comportamentais.
Alterações metabólicas.
Alterações elétricas.
Alterações motoras.
A ciência da mente sempre trabalhou com inferências.
Os espaços de representação seguem a mesma lógica.
Não procuramos observar o espaço diretamente.
Procuramos observar seus efeitos sobre o Corpo-Território.
O espaço como hipótese científica
Nesta proposta, os espaços de representação constituem uma hipótese teórica.
Uma hipótese útil para integrar diferentes níveis da experiência humana:
percepção;
atenção;
memória;
emoção;
linguagem;
pertencimento;
tecnologia;
consciência.
O espaço não é definido como uma estrutura anatômica específica.
Ele representa uma organização dinâmica do Corpo-Território.
Uma árvore.
Uma língua.
Uma pessoa.
Uma teoria científica.
Uma lembrança da infância.
Uma identidade profissional.
Uma comunidade.
Todos podem ocupar espaços de representação.
Cada espaço mobiliza diferentes configurações fisiológicas.
Cada espaço reorganiza o corpo de maneira particular.
A árvore do botânico e a árvore do ancião indígena
Imagine uma árvore centenária.
O botânico aproxima-se dela.
Seu espaço de representação mobiliza:
taxonomia;
fisiologia vegetal;
crescimento;
ecologia;
genética.
O ancião indígena aproxima-se da mesma árvore.
Seu espaço de representação pode mobilizar:
ancestralidade;
território;
memória coletiva;
narrativas;
pertencimento.
A árvore física permanece a mesma.
O Corpo-Território reorganiza-se de maneiras diferentes.
A ciência pode investigar essas diferenças.
O cérebro participa. O corpo participa. O território participa.
Uma das contribuições centrais desta proposta é abandonar a ideia de que a experiência acontece exclusivamente dentro do cérebro.
O cérebro participa.
O corpo participa.
O ambiente participa.
A cultura participa.
O território participa.
A experiência emerge da interação entre todos esses elementos.
Essa visão aproxima-se das abordagens contemporâneas de cognição incorporada, cognição situada e cognição distribuída.
O Corpo-Território torna-se a unidade mínima de análise.
EEG: a dinâmica temporal dos espaços
O EEG oferece uma janela privilegiada para observar a dinâmica temporal dos espaços de representação.
Quando um espaço é ativado:
a atenção reorganiza-se;
memórias são recrutadas;
expectativas são atualizadas;
decisões são preparadas.
Oscilações neurais.
ERPs.
Microestados.
Conectividade funcional.
Todos podem revelar diferentes formas de organização da atividade cerebral.
A pergunta deixa de ser:
Qual área cerebral está ativa?
E passa a ser:
Como o Corpo-Território reorganizou sua atividade diante deste espaço?
Essa mudança de pergunta abre novas possibilidades experimentais.
fNIRS: o metabolismo dos espaços
Se o EEG observa principalmente a dinâmica elétrica, o fNIRS permite observar alterações metabólicas associadas à experiência.
Quando um espaço é recrutado:
recursos metabólicos são mobilizados;
demandas cognitivas são distribuídas;
estratégias de decisão são organizadas.
O córtex pré-frontal frequentemente participa desses processos.
Mas a questão central continua sendo:
Quais espaços estão sendo sustentados neste momento?
A mesma tarefa pode mobilizar espaços completamente diferentes em diferentes indivíduos.
O metabolismo revela parte dessa reorganização.
HRV, respiração e GSR: a fisiologia da experiência
Todo espaço possui consequências fisiológicas.
Um espaço associado à segurança produz uma organização diferente de um espaço associado à urgência.
Um espaço associado ao pertencimento produz uma organização diferente de um espaço associado ao isolamento.
A variabilidade da frequência cardíaca (HRV), a respiração e a resposta galvânica da pele (GSR) permitem observar essas reorganizações.
A fisiologia torna-se uma linguagem do Corpo-Território.
EMG: os espaços também habitam os músculos
Os espaços não permanecem apenas na atividade cerebral.
Eles reorganizam postura.
Expressão facial.
Movimento.
Tônus muscular.
Microajustes corporais.
O EMG permite investigar essas transformações.
Um músico.
Um atleta.
Um pesquisador.
Um professor.
Cada um desenvolve espaços que passam a habitar o próprio corpo.
O aprendizado deixa marcas musculares.
O pertencimento deixa marcas musculares.
A experiência deixa marcas musculares.
Eye Tracking: para onde o espaço conduz o olhar
A atenção raramente se distribui aleatoriamente.
Os espaços ativos orientam o olhar.
Orientam a busca.
Orientam a exploração.
O Eye Tracking permite observar quais elementos recebem prioridade.
Dois indivíduos diante da mesma cena frequentemente exploram caminhos visuais diferentes.
A diferença está nos espaços que carregam.
O olhar torna-se uma expressão visível da organização interna.
Hyperscanning: quando os espaços tornam-se compartilhados
Talvez uma das áreas mais fascinantes da neurociência contemporânea seja o Hyperscanning.
Pela primeira vez tornou-se possível observar múltiplos cérebros interagindo simultaneamente.
Hoje sistemas EEG e fNIRS permitem investigar grupos inteiros.
Dez.
Vinte.
Trinta participantes.
Aprendendo.
Conversando.
Cooperando.
Criando.
Tomando decisões.
Aqui encontramos uma ponte direta com o conceito de Jiwasa.
A pergunta deixa de ser:
O que acontece dentro de um indivíduo?
E passa a ser:
Como espaços de representação tornam-se parcialmente sincronizados entre diferentes Corpo-Território?
Essa mudança talvez represente uma das maiores transformações metodológicas da neurociência contemporânea.
Uma nova pergunta científica
Tradicionalmente perguntamos:
Onde está a memória?
Onde está a emoção?
Onde está a atenção?
Talvez possamos começar a perguntar:
Quais espaços estão sendo recrutados?
Como esses espaços reorganizam o Corpo-Território?
Como diferentes espaços produzem diferentes formas de existir?
Como diferentes Jiwasas produzem diferentes formas de sincronização coletiva?
Essas perguntas aproximam experiência vivida e investigação científica.
O futuro da Neurociência Decolonial
A Neurociência Decolonial não busca substituir a ciência com evidência.
Busca ampliar suas perguntas.
Os espaços de representação constituem uma hipótese integradora.
Uma ponte entre:
Utupe;
Pei Utupe;
Xapiri;
atenção;
memória;
consciência;
tecnologia;
pertencimento;
Jiwasa.
EEG.
fNIRS.
HRV.
Respiração.
GSR.
EMG.
Eye Tracking.
Comportamento.
Hyperscanning multimodal.
Todos oferecem ferramentas para investigar os rastros deixados por esses espaços.
Talvez jamais observemos diretamente um espaço de representação.
Assim como jamais observamos diretamente uma emoção ou uma memória.
Ainda assim, seus efeitos organizam continuamente a experiência humana.
Fechamento
A ciência avança quando encontra novas perguntas.
Os espaços de representação oferecem uma dessas perguntas.
Eles convidam pesquisadores a observar não apenas neurônios, áreas cerebrais ou comportamentos isolados.
Convidam a observar a organização dinâmica do Corpo-Território.
Talvez a próxima geração da neurociência caminhe justamente nessa direção:
Compreender como os espaços que habitamos moldam aquilo que percebemos, sentimos, lembramos, criamos e compartilhamos.
Porque toda experiência acontece em algum espaço.
E toda ciência começa quando aprendemos a formular boas perguntas sobre ele.
Referências científicas (pós-2021)
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Grasso-Cladera, A. et al. (2024). Embodied Hyperscanning for Studying Social Interaction: A Scoping Review of Simultaneous Brain and Body Measurements.
Carollo, A. et al. (2024). Hyperscanning Literature After Two Decades of Neuroscientific Research.
Azhari, A. et al. (2025). A Systematic Review of Inter-Brain Synchrony and Social Interaction.
Chen, J. et al. (2024). A Cross-Disciplinary Review of EEG-fNIRS Dual-Modality Imaging.
Liu, C. et al. (2024). Neural, Genetic, and Cognitive Signatures of Creativity.
Yamakawa, H. (2024). Brain-Consistent Architecture for Imagination.
Vorreuther, A. et al. (2026). Reviewing Digital Collaborative Interactions with Multimodal Hyperscanning.
Speer, S. P. H. et al. (2024). Hyperscanning Shows Friends Explore and Strangers Converge During Conversation.
Dodig-Crnkovic, G. (2024). Rethinking Cognition: Morphological Info-Computation and the Embodied Paradigm in Life and Artificial Intelligence.
Parisi, G. (2021). In a Flight of Starlings: The Wonder of Complex Systems.
Bzdok, D., & Ioannidis, J. P. A. (2023). Grounding Cognitive Neuroscience in Real-World Contexts.
NeuroDesafío LATAM — Preguntas para un Mundo Nuevo
NeuroDesafio LATAM — Questions for a New World
NeuroDesafio LATAM — Perguntas para um Mundo Novo
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