Utupe, Pei Utupe e Xapiri: Imagem Cerebral, Alma e Representação
15/06/2026 at 08:06:43
Author: Jackson Cionek
15/06/2026 at 08:06:43
Author: Jackson Cionek
Como algo passa a existir para uma consciência?
Uma árvore existe no território. Um rio corre no mundo. Uma estrela atravessa o céu. Mas, para que algo participe da experiência humana, precisa ganhar representação dentro do Corpo-Território.
Nos conceitos que estamos desenvolvendo, usamos a palavra Utupe como referência central.
Tudo que existe tem um Utupe: uma representação espacial dentro de um Corpo-Território.
O Utupe de uma árvore envolve forma, cor, cheiro, som, memória, postura, respiração, pertencimento e possibilidade de ação. O Utupe de um rio envolve água, brilho, movimento, travessia, infância, alimento, perigo, cura, território e continuidade.
Cada coisa percebida ganha um espaço interno.
Esse espaço pode ser ativado, reativado, expandido, contraído, transformado ou liberado.
Utupe: a representação espacial da existência
Na Neurociência Decolonial, Utupe é o espaço de representação de algo dentro do Corpo-Território.
Esse espaço integra:
interocepção;
propriocepção;
memórias semânticas;
memórias episódicas;
imagens visuais;
sons;
cheiros;
pertencimento;
possibilidades de ação.
Pesquisas recentes sobre imagem mental indicam que representar algo envolve simulações sensoriais, cognitivas e afetivas, aproximando percepção, memória e emoção. (MDPI)
A representação de uma coisa envolve o corpo inteiro.
Ela participa da respiração, do tônus muscular, da atenção, do olhar, da memória e da forma como o Corpo-Território se posiciona diante do percebido.
As cinco dimensões do Utupe
Todo Utupe possui cinco dimensões fundamentais:
três dimensões espaciais;
uma dimensão de movimento;
uma dimensão de Xapiri.
As três dimensões espaciais dão forma, posição, profundidade e extensão.
A dimensão de movimento permite transformação, deslocamento, aproximação, afastamento, ativação e liberação.
A dimensão de Xapiri corresponde ao qualia: o brilho subjetivo da experiência.
O Xapiri é a dimensão que faz uma representação brilhar, dançar e ganhar intensidade diante da existência.
Sem Xapiri, temos estrutura.
Com Xapiri, temos experiência vivida.
Xapiri: o brilho que dança na experiência
Cada Utupe possui seu Xapiri.
O Xapiri é o brilho da representação.
É o modo como algo se torna vivo para a consciência.
Uma árvore pode ter o Xapiri da reverência.
Uma música pode ter o Xapiri da saudade.
Uma ideia pode ter o Xapiri do insight.
Um rosto amado pode ter o Xapiri da presença.
Davi Kopenawa tornou mundialmente conhecida a força dos Xapiri como espíritos-imagens da floresta, da vida e do mundo Yanomami. Aqui usamos o termo com respeito à sua origem Yanomami, como inspiração conceitual para pensar a dimensão qualia da experiência, preservando a diferença entre cosmologia Yanomami e modelo neurocientífico decolonial. (SUMAÚMA)
O meteorito e o Xapiri da noite
Imagine um Corpo-Território em estado de Fruição e Metacognição.
A pessoa está em silêncio.
A noite está limpa.
Sem luar.
O céu aparece profundo.
A respiração acompanha os sons do território.
O corpo está aberto, atento, presente.
As estrelas ocupam lentamente os espaços internos de representação.
Então um meteorito corta o céu.
Por alguns segundos, tudo se reorganiza.
A atenção converge.
A respiração muda.
A postura muda.
O olhar se abre.
A emoção surge.
O céu ganha profundidade.
O tempo parece mudar.
O que atravessa a experiência vai além da trajetória física do meteorito.
É o Xapiri do meteorito.
O brilho.
O qualia.
A dança luminosa que reorganiza, por instantes, o Corpo-Território inteiro.
Aquele risco de luz cria Utupe.
Se toca emoções e se transforma em memória episódica, torna-se Pei Utupe.
Pei Utupe: a alma em nossos conceitos
Em nossos conceitos, Pei Utupe é alma.
Pei Utupe é o Utupe vivido, emocionado e incorporado como memória episódica.
É quando a representação espacial se liga às emoções e passa a participar da história íntima do Corpo-Território.
A casa da infância pode ser Pei Utupe.
A voz de uma mãe pode ser Pei Utupe.
Um rio ancestral pode ser Pei Utupe.
Um encontro, uma perda, uma promessa, uma música ou uma noite estrelada podem se tornar Pei Utupe.
A alma, nesta formulação, corresponde à memória episódica sentida: representação, emoção, corpo e experiência vivida.
Pesquisas recentes mostram que a consciência corporal participa da recuperação de memórias episódicas, reforçando a relação entre corpo, presença e lembrança vivida. (PMC)
Utupe e espírito: memórias semânticas organizadas
Também usamos espírito em sentido conceitual preciso.
Espírito corresponde ao Utupe como espaço de memória semântica.
É o campo dos significados, nomes, categorias, símbolos, narrativas, mitos, teorias e conhecimentos compartilhados.
O espírito de uma árvore pode envolver botânica, ancestralidade, ecologia, literatura, cosmologia, política ambiental e história de um povo.
O espírito de uma palavra pode carregar séculos de uso.
O espírito de uma ciência pode organizar modos inteiros de observar o mundo.
Assim:
Espírito é Utupe: memória semântica organizada.
Alma é Pei Utupe: memória episódica sentida.
Xapiri é Qualia: o brilho que dança na experiência.
Modelos recentes de representação mental discutem justamente a relação entre memória episódica, memória semântica e formas híbridas de representação, o que ajuda a sustentar essa distinção conceitual dentro de uma abordagem científica responsável. (PubMed)
Almas, espíritos e liberdade de existir
Almas e espíritos fazem parte da existência humana.
Eles participam de lembranças, símbolos, rituais, narrativas, sonhos, artes, ciências, famílias, povos e territórios.
Quando convivem com liberdade, cuidado e abertura, enriquecem a experiência diária.
Eles ajudam a lembrar, criar, pertencer, estudar, rezar, pesquisar, cantar, cuidar e imaginar.
Quando usados para capturar atenção, produção, dinheiro ou voto, esses espaços podem se tornar instrumentos de aprisionamento do Corpo-Território.
A Neurociência Decolonial busca cultivar uma convivência responsável com esses espaços.
Materialidade científica
EEG, fNIRS, HRV, respiração, GSR, EMG, eye-tracking e comportamento podem ajudar a investigar os rastros materiais da ativação dos Utupe.
EEG pode observar dinâmicas rápidas de atenção, memória e imagem mental.
fNIRS pode observar mudanças hemodinâmicas associadas à demanda metabólica cortical.
HRV, respiração e GSR podem indicar engajamento autonômico e intensidade emocional.
Eye-tracking pode mostrar como o olhar explora o percebido.
O comportamento pode revelar aproximação, afastamento, hesitação, cuidado, escolha ou encantamento.
Essas medidas registram rastros fisiológicos associados à ativação do Corpo-Território. Elas ajudam a inferir quando um Utupe ganha força, quando um Pei Utupe organiza alma e quando o Xapiri aparece como brilho vivido da experiência.
Fechamento
Algo passa a existir para uma consciência quando ganha Utupe.
O Utupe organiza a representação.
O Pei Utupe constitui a alma: a integração entre representação, emoção e memória episódica.
O Xapiri constitui o brilho da experiência: a dimensão qualia que dança dentro do Corpo-Território.
A Neurociência Decolonial nasce desse encontro entre ciência, evidência, corpo, território, memória, imagem, alma, espírito e qualia.
Cada Corpo-Território vive o mundo através dos Utupe que consegue ativar, sentir, cuidar e transformar.
Referências científicas e culturais pós-2021
Boccaccio, F. M. et al. (2024). Mental Imagery between Cognition and Emotion.
Relevância: revisa relações entre imagem mental, cognição e emoção, sustentando a ideia de que representações internas envolvem processos sensoriais, afetivos e cognitivos. (MDPI)
Parma, C. et al. (2024). An Overview of Bodily Awareness Representation and Interoception.
Relevância: discute interocepção, propriocepção e consciência corporal como bases da experiência corporificada. (MDPI)
Penaud, S. et al. (2023). The Role of Bodily Self-Consciousness in Episodic Memory Retrieval.
Relevância: investiga como consciência corporal participa da recuperação de memórias episódicas em contextos naturalísticos com realidade virtual. (PMC)
Addis, D. R.; Szpunar, K. K. (2024). Beyond the Episodic–Semantic Continuum: The Multidimensional Model of Mental Representations.
Relevância: propõe uma visão multidimensional das representações mentais, útil para pensar memória episódica, memória semântica e formas híbridas. (PubMed)
Sumaúma (2024). Carnaval 2024: Salgueiro mostra a dor e a beleza de ser Yanomami.
Relevância: registra a presença pública contemporânea dos Xapiri e de Davi Kopenawa em diálogo com arte, política e cosmologia Yanomami. (SUMAÚMA)
Akademie Schloss Solitude (2021). Xapiri.
Relevância: apresenta os Xapiri como imagens, conhecimento vivo e entidades vivas no contexto Yanomami, reforçando a necessidade de uso respeitoso do termo. (Akademie Schloss Solitude)
NeuroDesafío LATAM — Preguntas para un Mundo Nuevo
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NeuroDesafio LATAM — Perguntas para um Mundo Novo
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